TEMPO COMUM Respondeu-lhes Jesus: "Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus". (MT 22,29)

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21/09/2017 1º Encontro de agentes de pastoral com representantes de todas as aldeias Bororo. Fazer unidade entre cultura bororo e a Igreja local

Fazia tempo que a diocese de Rondonópolis-Guiratinga, Missão Salesiana e CIMI-MT desejavam fazer este encontro que enfim aconteceu na sede da diocese. O querido bispo Dom Juventino Kestering acolheu e hospedou com muito carinho os 19 Bororo e os 5 missionários-as. No dia 04 de setembro começou o encontro que foi muito bom devido à estratégia usada: Bororo evangelizando Bororo. “Estamos na vossa terra, no vosso chão. Queremos ouvi-los e ver juntos a melhor maneira de levar a Boa Mensagem ao querido povo Bororo.” Com estas palavras o bispo abriu o encontro após ser entronizado e adornado com uma Cruz peitoral enfeitada bem no estilo bororo. Em seguida o chefe cultural Ismael Atugoreu entoou o canto bororo de abertura pedindo a ajuda de Deus e das almas dos antepassados, os “Aroe Mage.” A programação do encontro e a coordenação ficou por conta dos Bororo de Meruri assessorados pelo Mestre Mario Bordignon: José Mário Kugarubo, Lourenço F. Pirojibo Bororo, Leonida Akiri Kurireudo e Maria Pedrosa Urugureudo. Cantos, leituras e diálogos se alternaram em língua bororo e em português, como se alternaram cultura bororo e cultura cristã procurando: “ Fazer unidade entre cultura bororo e religião e sermos bons Boe-Cristãos.” Assim sintetizou o Lourenço Pirojibo. Boe, gente, é a autodenominação bororo. Esta é uma necessidade especialmente para os dias de hoje e para a juventude bororo que tende afastar-se da própria cultura e aproximar-se das coisas piores da cultura dos “Brae,” dos não-índios. Dom Juventino e os mesmos Bororo afirmaram ser este encontro um momento histórico do povo bororo e da Igreja local.
Feitos estes esclarecimentos houve a apresentação dos participantes falando o seu nome, o da própria aldeia e o que esperava deste encontro. Muitas expetativas foram colocadas. Destacamos algumas:
– Fortalecer a nossa cultura e a nossa vivência religiosa.
– Aprender juntos, fazer crescer a semente que recebemos.
– Não basta batizar a criança, precisa cuidar da criança para ela crescer na religião.
– Em muitas das nossas aldeias quase não aparece padre ou não aparece de vez. Temos que melhorar a vivência religiosa.

Em seguida em grupos responderam à pergunta: Por que os Bororo pedem o Batismo. As respostas foram muitas e variadas. Destacamos algumas dos grupos e do plenário:

– Sempre que nasce uma criança tem que dar o nome e batizar para ficar protegida e nenhum mal atingir a ela.
– Bororo dá o nome e batiza porque tem medo dos “Maereboe bope pegareuge,” os espíritos maus. Agora não temos mais “Bari”, o xamã dos espíritos, nem o “ Aroe etawarare,” o xamã das almas dos finados que afastavam os maus espíritos e pediam a proteção dos espíritos bons e dos finados. (Um Bororo respondeu que não tem medo de Maereboe pegareuge.)
– O Bororo tem nome que o acompanha e protege a vida toda até a morte e depois da morte. Tem o funeral que o prepara para a outra vida.
– O Bororo com o ritual do nome se torna Boe remawu, Bororo de verdade. É inserido no seu grupo, na comunidade, no mundo material e espiritual. Tem seus Aroe, espíritos que o protegem.
– Bororo pede batismo para criança ser sadia de corpo e de alma.
– Na nossa cultura tem a festa do nome, Boe iedodo. Deve ter também no batismo católico porque é filho de Deus.
– O que temos de sagrado na nossa cultura foi Deus quem nos deu. Tem branco que ensina coisas boas, coisas de Deus e branco que ensina coisas ruins. O batismo católico é bom porque aproxima mais de Deus.
– Muitos de nossos pais conheceram os padres há muito tempo. Nossos pais viviam a religião católica e a cultura bororo, mesmo às escondidas. Nós queremos continuar ser Bororo católicos, mesmo se a religião agora é mais fraca. A cultura bororo não está morrendo. Está adormecida, está em cada Bororo vivo.
– Nós tínhamos também coisas ruins, matávamos, não sabíamos perdoar. O que passou passou. Mas conhecemos o Novo que chegou para completar o velho, o catolicismo com sua fé e seus mistérios como tem mistérios na nossa cultura.
– Evangélico está mais presente nas aldeias que o padre católico. Por isso tem gente que foi batizada no católico de pequeno e de grande pede batismo dos evangélicos.
– Batismo católico não é roupa bonita e padrinho rico. É seguir o caminho de Deus.
– Muito jovens, pais e padrinhos não sabem direito o que é batismo católico. Deveria ter um livrinho explicando isso direitinho.

Dom Juventino procurou explicar resumidamente o sentido do batismo católico. Com o exemplo de uma pequena árvore na mão explicou que o batismo é o que liga a folha à árvore que representa Deus Pai, seu Filho que veio ao mundo e o Espírito Bom, o Espírito Santo. O batismo liga nós a Deus e para ser inseridos neste mistério temos o ritual do batismo muito parecido ao ritual bororo. No ritual temos quatro símbolos: a água que limpa de todo pecado; o óleo que dá força, a veste branca que simboliza a candura do novo ser e a vela que simboliza a luz de Deus. Os Bororo antes do ritual lavam na água a criança, depois passam nela nonogo e kidoguro, urucum e resina do pé de mescla como remédio para ficar forte, depois recobre o corpo da criança de penugem branca e a elevam com o rosto rumo à luz do sol nascente para dar-lhe o nome. Em seguida foi passado um vídeo onde o batismo católico e o ritual católico foram feitos numa única cerimónia. Seguiu um pequeno debate em grupos e no plenário se fazer junto ou separado. Nem todas as aldeias têm chefe de cerimonia bororo e não é fácil faze-los juntos. Onde for possível seria bom. Hoje a Igreja católica é mais aberta à uma liturgia inculturada. À noite foram passados vários vídeos da cultura bororo.

No dia 05, após as orações em bororo e canto da Igreja também na língua bororo, foram feitos três grupos de aldeias por região: 1º Meruri e Jarudori, 2º Tadarimana, 3º Teresa Cristina e Perigara. Em grupo deviam responder à pergunta:
– Quais são as coisas mais importantes da cultura bororo e da religião católica.

As respostas, em relação à cultura bororo, foram praticamente iguais. Destacamos:
– Tudo é importante na vida bororo, desde a criança na barriga da mãe até a morte e depois da morte. É mais importante quando serve para as coisas lá de cima. A terra é muito forte porque dela tiramos nossa comida, tudo o que precisa para os rituais sagrados. Os rios, os córregos, as lagoas para a pescaria e para os finados. Sua organização social em duas metades e em clãs. A mulher é importante na cultura bororo. Os corpos dos Bororo, suas pinturas corporais, seus adornos, suas casas, sua comida, sua língua, seus mitos, seus rituais, suas danças, seus cantos, muitos cantos. Seu ritual mais importante é o funeral. A nossa cultura é muito grande por isso que as pessoas se especializam só em duas ou três coisas. O bonito da cultura bororo é a sua unidade entre a natureza, as pessoas e a religião. No ritual sempre tem um elemento da natureza em cima do corpo das pessoas que celebram os mistérios. Precisamos nos preocupar mais com a nossa cultura. Futebol e baile todo mundo vai mas poucos vão no ritual. Cacique, lideranças, escola e pastoral devem trabalhar mais com as crianças e jovens para participar mais. Branco está de olho na nossa terra. Temos que estar unidos para nos defender.

Sobre a Igreja Católica as coisas mais importantes destacadas foram:
– A palavra de Deus. Ter fé em Deus, em Jesus seu Filho que morreu por nós, amar o próximo e perdoar. Sentir-se filhos de Deus e procurar ser uma boa pessoa. Deus só pode fazer coisa boa para nós. Por isso que Bororo pede o batismo. Os sacramentos, o batismo, a crisma, a missa, a oração e a benção de Deus. Devoção à Nossa Senhora, devoções populares aos santos e aos mártires. Nos sacramentos Deus vem participar da nossa vida. A família deve ajudar as crianças batizadas a viver a fé católica. A religião católica é parecida com a cultura bororo.
À tarde Dom Juventino procurou esclarecer resumidamente a diferença entre católicos e evangélicos pois os evangélicos estão cada vez mais presentes também nas aldeias. Até 1526 os católicos eram mais ou menos todos unidos. Neste ano um grupo protestou e se separou da Igreja católica. Eles têm coisas boas mas não têm o papa, Nossa Senhora, alguns sacramentos. Têm a Bíblia que procuram interpretar a seu modo. Em 1.800 começaram a aparecer as seitas que foram aumentando sempre mais e os seguidores são conhecidos como evangélicos. Têm coisas boas, especialmente a leitura da Bíblia, o combate ao alcoolismo e às drogas, os cultos e as orações. Não têm a missa, a devoção a Nossa Senhora e aos santos, batizam só adultos, são contra a cultura dos povos indígenas e dos negros. Por isso que podem ser prejudiciais à unidade do povo Bororo.

Em seguida, em grupos, responderam à pergunta:
Quais são as coisas menos boas da cultura bororo e dos “Brae doge,” não-índios e o que tem a que ver com tudo isso o batismo.
Boe: Pouco interesse com a cultura, desunião, alcoolismo, droga, comida de brae. Falta do funeral em muitas aldeias, medo de ensinar coisas boas, jurubo pegareu, veneno. Televisão, internet e celular não sabendo usar direito são prejudiciais, tiram o mistério dos nossos rituais e todo mundo vê e não pode. Muito futebol e baile.
Brae: bebida, droga, dinheiro e dinheiro, compra e compra. Não respeita o direito do índio. A bancada ruralista contra os índios, Michel Temer contra nós, contra os pobres. Política que não representa as necessidades do povo.
O batismo: Deve incentivar a tirar tudo o que há de ruim, a seguir o caminho de Deus, a ter fé nEle e pedir ajuda. Os batizados devem dar bons exemplos com a vida e com as palavras.
Antes do jantar houve a celebração da santa missa presidida por Dom Juventino porque no dia seguinte ele devia seguir viagem para a reunião das CEBS em São Félix do Araguaia. Houve cantos bororo, cantos e leituras em bororo e em português com muita participação e devoção da parte de todos.
À noite houve um relato do Mestre Mario sobre a atual conjuntura da política indigenista que nunca foi tão ruim e as reações no Brasil todo dos índios e seus aliados, como o CIMI e as vezes o Ministério Público Federal. Muitas perguntas foram feitas e pedidos de comunicar mais tudo isso nas aldeias. A pastoral tem que saber disso tudo.
Na manhã do último dia, dia 06, juntos os Bororo opinaram sobre o objetivo deste encontro, sobre o por que de estar aqui:

– Deus nos chamou aqui para uma missão. Para aprender. Para fortalecer a cultura e a religião na comunidade. Para tirar nossas dúvidas. Para enfrentar o desafio da pastoral. Estamos na pastoral indígena “paru,” no começo. Para Bororo evangelizar Bororo.
Depois, em grupos, responderam às perguntas: 1º O que vou fazer voltando para minha aldeia. 2º Vamos fazer outro encontro. Se sim, que assuntos tratar.
Respostas: 1º Descansar, informar e repassar para o cacique e a comunidade o que foi feito aqui, participar ou promover celebrações, mês de maio com terço, Via Sacra, orações… Dar bons exemplos e conselhos, incentivar a língua materna, aproximar cultura e religião. Precisamos de um livrinho para celebrações em bororo e em português. Vamos gravar os cantos populares em língua bororo para usar nas aldeias. Ficou combinado que a equipe de Meruri, depois de ensaiar os cantos, virá em Rondonópolis com a Joyce do setor de comunicação para gravar, este ano ainda.
Respostas: 2º É bom fazer outro encontro sim. Resposta unânime. Aumentar o número de participantes. Trabalhar assuntos: como preparar para os sacramentos. O papel da Igreja católica na aldeia. Como ler a rezar com a Bíblia.
O grupo pediu de dar o nome ao próprio grupo. Após várias discussões chegou-se a um consenso com este nome: “PAU BATARU PEMGAREU TABOUGE.” O GRUPO QUE LEVA A PALAVRA BOA DE DEUS.
Na avaliação final todos manifestaram a satisfação e alegria por ter participado deste encontro e não encontraram nada que não foi tão bom. O almoço encerrou o encontro.

Mestre Mario Bordignon. Salesiano CIMI-MT.