TEMPO COMUM Respondeu-lhes Jesus: "Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus". (MT 22,29)

INFORMATIVO

Cadastre e receba nosso informativo

23/10/2019 “Se Jesus não estivesse presente, nem seria um Sínodo”, afirma padre Zenildo

Após participar da entrevista coletiva à imprensa do Sínodo para a Amazônia, nesta quarta-feira, 23, o reitor do Seminário São José de Manaus (AM), padre Zenildo Lima da Silva, atendeu um grupo de jornalistas brasileiros que buscaram aprofundar algumas temáticas relacionadas ao Sínodo. O presbítero que participa da Assembleia Sinodal como um dos auditores falou sobre o processo de desinformação em torno do sínodo, a relação do Papa com as populações tradicionais e da Igreja com governos, além de analisar o espaço de denúncias proporcionado pelo sínodo.

Durante a coletiva, padre Zenildo falou que o processo de recepção do sínodo tem encontrado dificuldades de comunicação, numa realidade na qual “o pensamento é frágil” e a compreensão se dá pela especulação, pelas fake News. Perguntado se há uma campanha arquitetada de desinformação, disse não ter elementos para afirmar isso, mas observa ruídos desde a convocação do sínodo, que não estão relacionados somente à assembleia sinodal, pelo menos no Brasil.

“Algumas manifestações que acontecem chegam a ser desrespeitosas, agressivas, quando não, doentias. E isso nos preocupa, mas é fruto também do processo de formação que se impõe para nós. Hoje falar de formar cristãos é falar de formar pessoas com a capacidade de diálogo. Não dá mais para a gente suportar, num tempo como o nosso, atitudes de intolerância, de perseguição, de acusação, de falta de comunhão, sobretudo quando isso se reveste de uma carga religiosa muito grande, eu diria de um pseudocatolicismo”.

Sobre o espaço de denúncia que os povos indígenas e várias organizações católicas encontraram tanto na assembleia sinodal, quanto em eventos paralelos realizados em Roma, padre Zenildo afirma que é um espaço de evangelho no qual as populações encontraram uma “instância de escuta”.

“Se a gente faz essa aplicação bíblico teológica, digamos assim, o processo bíblico é um processo de escuta do povo. Essas populações, com as suas vidas, em suas realidades, em seus territórios ameaçados, já não sabiam a quem mais recorrer”.

Diferente de um parlamento ou de uma organização não-governamental, o Sínodo e a Igreja, respectivamente, têm um diferencial na atuação frente a estes desafios, segundo padre Zenido: “Temos a obediência ao Evangelho, o seguimento de Jesus. Nós o fazemos sobretudo por causa de Jesus Cristo. Ele é a grande inspiração deste Sínodo. Se Jesus não estivesse presente, não fosse a principal inspiração desse Sínodo, aí nem seria um Sínodo”.

Confira a entrevista na íntegra:

O senhor falou a respeito das fake News, fez toda essa avaliação da cobertura da imprensa durante o Sínodo. Mas o senhor acha que existe algum tipo de campanha arquitetada contra o Sínodo da Amazônia?

Para falar de campanha arquitetada eu precisaria de mais elementos para isso, poderia ser leviano da minha parte. O que a gente sabe é que, desde a convocação do Sínodo, iniciaram alguns ruídos que não é um processo que começou com o Sínodo. Particularmente nós da Igreja no Brasil temos experimentado ruídos desde a assembleia nacional da Pastoral da Juventude, desde o Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, desde o lançamento da Campanha da Fraternidade (2018) e agora com o Sínodo da Amazônia, esses ruídos tem se tornado mais rumorosos. Isso tem, se não preocupado, porque não é que a gente tenha dado tanta atenção assim, mas tem incomodado as pessoas de boa vontade que estão trabalhando com seriedade no Sínodo. Algumas manifestações que acontecem chegam a ser desrespeitosas, agressivas, quando não, doentias. E isso nos preocupa, mas é fruto também do processo de formação que se impõe para nós. Hoje falar de formar cristãos é falar de formar pessoas com a capacidade de diálogo. Não dá mais para a gente suportar, num tempo como o nosso, atitudes de intolerância, de perseguição, de acusação, de falta de comunhão, sobretudo quando isso se reveste de uma carga religiosa muito grande, eu diria de um pseudocatolicismo.

Temos observado que existe também uma falta de conhecimento básico em relação à realidade da Amazônia. Talvez isso também tenha provocado essa comunicação truncada?

Se a questão for somente a falta de informação, já não é muito preocupante, porque se trata de uma atitude fruto de ignorância. Mas ameaçador seria se, quem tem esse tipo de discurso, é dotado de algumas informações, e a gente sabe que a Amazônia é uma terra de disputa, e com esse tipo de atitude queira enfraquecer qualquer iniciativa que vai na linha do fortalecimento dos povos da Amazônia, da pauta da Igreja. Isso se tornaria bem mais preocupante para nós se tudo fosse parte de um projeto arquitetado, pensado e até quem sabe financiado. Mas a gente não tem acesso a essas informações. O que é mais importante é o que nós temos para comunicar. Isso tem sido a grande preocupação nossa. Também, evidentemente, nós que estamos participando do Sínodo estamos na expectativa de um documento final. Mas é um elemento do Sínodo. Eu me sinto muito mais pressionado, muito mais cobrado pelos povos da Amazônia que me enviaram para cá, muito mais cobrado pelas comunidades eclesiais que me enviaram para cá, pelas pessoas que participaram do processo de escuta e diziam para nós ‘Olha, leva essa nossa sugestão e nos traga uma palavra de alento, uma palavra que a Igreja vai continuar conosco’.

O senhor acha que nesse sínodo o Papa está fazendo um mea culpa com as comunidades indígenas de toda a Pan-Amazônia? E também com relação ao governo Bolsonaro, que está tão contrário, o senhor acha que podemos fazer uma distensão pós-sinodal?

Eu acho que é importante a gente reconhecer o seguinte: desde o pontificado do Papa João Paulo II, sobretudo na ocasião do Jubileu, o Papa tem feito celebrações até formais, litúrgicas de perdão a processos evangelizadores que a Igreja viveu marcados por ambiguidades. Eu acho que hoje, mais do que um mea culpa, a partir do que aconteceu, por exemplo, em Puerto Maldonado, o Papa está fazendo mesmo é um abraço. É muito interessante perceber as intervenções de indígenas nas aulas sinodais quando dizem assim: ‘O Papa é indígena como nós’. Então, há muito mais esse abraço e essa acolhida.

Quanto à relação da Igreja com os governos nacionais, seja em qualquer um dos nove países que compõem a Pan-Amazônia, acho que é muito interessante perceber que os governos e o poder executivo têm a grande responsabilidade de regular, digamos assim, o bem comum, de serem os grandes guardiões do bem comum. Então, nesse sentido, eles não são inimigos do processo sinodal. Muito pelo contrário. São eles que têm nas mãos as ferramentas que podem garantir, seja do ponto de vista do marco legal, seja do ponto de vista das políticas públicas, a vida dos povos da região e esta pauta que o sínodo apresenta para nós. Quanto mais a gente puder estabelecer diálogo com os governos para que eles, por exemplo, assegurem a demarcação de terras indígenas, respeito à legislação que não permite mineração em terras indígenas… Mas eu acho que muito mais ameaçador do que qualquer reação contrária ao Sínodo por parte dos governos, na verdade é todo processo de mercado que a gente vive. Nós vivemos numa economia de mercado que é uma economia de consumo, que todos nós somos consumidores. E quanto mais consumidores formos, mais estaremos consumindo a Amazônia.

Paralelamente ao Sínodo algumas pessoas e organizações vêm denunciando violência, retrocessos e o Sínodo acabou virando esse espaço de denúncia. O senhor acha saudável?

Na verdade, o Sínodo ganhou um espaço de Evangelho. Então, quando as populações encontram uma instância de escuta, isso é muito importante. A Teologia que a gente tem no Antigo Testamento é a Teologia de um Deus que escuta o seu povo. Com toda a peculiaridade com a qual são escritas as narrativas do Antigo Testamento, mas eles [os livros] mostram muito essa relação, sobretudo no livro do Êxodo: ‘Eu ouvi a aflição do meu povo e desci para libertá-lo’. Se a gente faz essa aplicação bíblico teológica, digamos assim, o processo bíblico é um processo de escuta do povo. Essas populações, com as suas vidas, em suas realidades, em seus territórios ameaçados, já não sabiam a quem mais recorrer. E contam com essa experiência da Igreja Católica aquilo que eles podem dizer, também segundo a própria tradição religiosa. Deus está escutando o clamor do seu povo. Evidentemente que há um diferencial. O Sínodo não é um parlamento, a Igreja Católica não é uma Organização não Governamental.

Qual é a perspectiva com a qual a gente considera toda essa realidade? É aquilo que a Conferência dos Bispos em Aparecida apresentou para nós: ‘o nosso olhar é do discípulo missionário’. Outras instituições podem acolher esse clamor e tentar oferecer respostas na articulação, na organização dos povos a partir de uma questão de justiça social, nós também temos essa questão, mas temos a mais. Temos a obediência ao Evangelho, o seguimento de Jesus. Nós o fazemos sobretudo por causa de Jesus Cristo. Ele é a grande inspiração deste Sínodo. Se Jesus não estivesse presente, não fosse a principal inspiração desse Sínodo, aí nem seria um Sínodo.